segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

sad


triste.
nunca disse isso com todas as palavras, mas agora está.
não só está triste.
ligar... mas tem medo.
sabe o que está sentindo.
queria escutar a músiquinha do telefone, mas isso não acontece mais.
ouviu de vidas futuras e ficou tão tão feliz, mas, agora, não sabe mais se esse futuro virá.
quer colo e é só um que (ela) quer.
se entregando aos vícios e aos seus próprios edredons.
chorou nos ombros de bidù, nos de tina, nos de seus travesseiros.
e lamentou em outros tantos ombros.
sentar e conversar.
pedir demais?
nem escrever ela tem conseguido.
00h00
nadinha.


dormir e ver o que acontece.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

c'sangels.


não se via um palmo diante do nariz. tudo se cobria de nuvens de fumaça. a nicotina se fazia viva em cada uma das veias presentes.
esquálido, dentro de um terno escuro e sério. os cabelos alinhados e incrustados na cabeça por um gel que os deixavam brilhantes. se encostou na soleira da porta e perscrutou com seus olhos cinza opaco os presentes. puxou o cigarro do bolso interno direito e, como se todos os movimentos fossem espiralados e voluptuosos, acendeu o cigarro, guardou o isqueiro e deu o primeiro trago. tinha o olhar doentio de quem já viveu muito, de quem já viu demais e se cansou de enxergar. quarenta e cinco ou um pouco mais se mantiveram parados e apoiados na bengala de ponta metálica – adorno ou problemas motores, não se sabia ao certo. outro trago.ao menos a música era boa. ele se deteve no canto esquerdo por um segundo ou dois a mais, que mais pareciam a eternidade. emanava luz daquele lugar. pálida e substancialmente magra, ela estava sentada contemplando o chão, nem mesmo notara quem havia chegado. seus cabelos vermelhos caiam-lhe sobre o nariz finíssimo, mas ainda assim deixavam sardas delicadas à mostra. outro trago. achou conveniente sentar-se perto dela. não que tivesse algum motivo especial, só achou que talvez ela conhecesse aquelas pessoas. esgueirou-se pelos paredes laterais e, tentando não virar mais cabeças, sentou-se ao lado dela. apagou o cigarro no cinzeiro que havia entre os dois, ela nem ao menos se moveu. ele se sentiu quase ofendido. como? como todos pararam pra fita-lo e ela nem o notara? não era de seu feitio interessar-se tão rapidamente por alguém, ainda mais tão nova. mas ele sabia que havia alguma coisa mais. ela levantou a cabeça uns dois dedos e ele notou olhos de um verde vívido, mas que pareciam perdidos. ela virou-se para olha-lo e ficou inquieta. ele a viu fitar o chão novamente, mas com os olhos quase esgazeados e mais atinados do que antes. ela parecia feita de papel ou algo mais macio. ele queria toca-la para ver se realmente existia, esticou uma das mãos em direção à ela, mas mudou o curso e apenas limpou algumas cinzas que estavam na calça, e se sentiu um idiota por ter feito isso. precisava ouvir a voz dela. queria lhe falar, na verdade ele queria muitas coisas. tentou por alguns minutos pensar em algo para falar mas não conseguia. apenas à fitava com tamanha intensidade que era notável de qualquer lugar do bar. ela parecia mais corada do que ele havia notado quando chegou. estaria nervosa? ele precisava de mais um trago. puxou a carteira novamente e refez os movimentos: cigarro, isqueiro e outro trago. ele a viu olhando os movimentos que fizera e estendeu a carteira lhe oferecendo um cigarro. ela esticou a mão trêmula e pegou um. ele acendeu para ela, chegando o mais perto que poderia se atrever. eles se olharam nos olhos e ele podia sentir seus próprios batimentos mais acelerados. se sentindo mais idiota e muito tentado a se aproximar mais, inclinou-se na cadeira e, ainda a fitando, roçou a perna na dela, sem intenção. parece que foi o suficiente para desapertá-la do que parecia ser um transe. ela se virou e continuou fumando o cigarro, ainda mais nervosa. o cigarro se perdeu em uma de suas mãos e ele só pensava no quanto precisava entende-la. tinha medo de falar e perder toda a idealização da coisa. tinha medo de não falar e perde-la de vez. queria poder ver o que ela estava pensando, esforçou-se muito tentando, em vão. puxou então, de um dos bolsos internos, um pedaço de papel e uma caneta. escreveu, deixou o papel e o seu isqueiro sobre a cadeira que estava, levantou-se tocou-a no ombro esquerdo e sussurrou algo em seu ouvido. dirigiu-se em meio à fumaça até a porta, virou-se e a fitou mais um vez, agora com um meio sorriso. então saiu.


não se via um palmo diante do nariz. tudo se cobria de nuvens de fumaça. a nicotina se fazia viva em cada uma das veias presentes.
ela nem sabia mais porque decidira sair de casa. os dias tinham sido péssimos e todo o seu corpo ardia sem cessar. depois de tanta insistência de uma amiga, ela resolveu sair. disse que não poderia ficar muito tempo. foi apresentada à todos que já bebiam e conversavam alegremente e teve que forçar sorrisos simpáticos e apertar mãos embriagadas por cinco longos minutos. odiava o jeito que a olhavam, parecia apenas um pedaço de carne. se odiou por ter saído de casa e por ter colocado aquela blusa com aquele maldito decote. finalmente conseguiu sentar-se. achou que finalmente teria um pouco de sossego, mas era apenas o começo. muitos tentaram puxar assunto. tempo, bebidas, festas e até futebol. ela não queria falar, sentia um gosto forte de sangue na boca, apenas meneava a cabeça e soltava algumas poucas interjeições. por fim, desistiram. ela deixou-se levar por pensamentos pesados e cheios de culpa e passou a fitar o chão, não via mais nada e mal podia ouvir as pessoas à sua volta, nem o jazz, que tanto gostava, fazia sentido. ela já havia traçado a noite. voltaria para casa, encheria novamente a banheira, e aí: seria norah, ass, lexotan, gilete e eternus somnus. então, ela sentiu o clima do lugar mudar, sentiu que as pessoas haviam se calado momentaneamente e lançou um olhar à esguelha para soleira da porta. uma figura alta e imponente se encontrava ali. distinguiu, no pouco tempo que olhou, que usava um terno alinhado e era bem mais velho que ela. por uma fração de segundo seus olhares não se cruzaram, ela sentiu seu rosto corar e implorou pra que ele não notasse. sabia que agora ele se mexia e que estava vindo em sua direção. manteve-se inerte, decidira que não daria a ele a mesma atenção que os outros deram, só não sabia porquê. entreviu ele sentando perto, podia até mesmo sentir o cheiro que vinha do cigarro, mesmo assim não se mexeu. tentou divagar novamente, mas se perdeu na visão que guardara dele perto da porta. ele apagou o cigarro, quase roçou no seu braço e ela corou levemente, desejando que ele não notasse. levantou uns dois dedos o rosto e depois virou para fita-lo. podia se ver na limpidez daqueles olhos. ficou nervosa e tentou com todas as forças parecer normal. sentia o sangue fluir no rosto e no colo, sabia que devia estar emanando calor e ele tão perto devia estar sentindo. e corou ainda mais com esses pensamentos. notou-o se mexendo ao seu lado e sentiu suas entranhas pesarem e congelarem dentro do abdômen, ele a tocaria. mas ele apenas expulsou cinzas de cigarro da calça e ela se sentiu uma idiota. pensou na imaturidade de tudo aquilo. ela sentia o olhar pesado dele colado no seu rosto. aquilo a incomodava, mas ela não queria que ele parasse. queria poder falar alguma coisa. o gosto de sangue sumira da boca, devia estar todo nas bochechas. ela percebeu que ele acenderia um cigarro, virou-se decidida a examina-lo e contemplou os movimentos mais coordenados que já vira. se pegou com a boca entreaberta ainda contemplando-o e percebeu, dois segundos mais tarde, que ele a oferecia um cigarro. com as mãos tremendo puxou um pelo filtro escuro e colocou-o na boca. ele esticou o isqueiro e acendeu. eles se olharam longamente entre a fumaça do cigarro. ela se perdeu naqueles olhos cinza, achava que podia ficar por horas exatamente onde estava, nem notou que ele se aproximava, até que o tecido roçou seu joelho nu e ela virou-se para frente atônita. por que ela virou? por que ela não deixou que continuasse? baforadas intensas de fumava saiam por sua boca. sentia-se tão culpada por ter perdido aquela chance. envergonhada por ter virado com tanta rispidez. queria pedir desculpas, queria conversar, queria tudo, menos ficar só parada contemplando, mais uma vez, o chão. ela sabia que ele estava fazendo alguma coisa, mas não conseguia ver perifericamente. então ele se levantou. ela desesperou-se. ele iria embora por ela ter sido indelicada. iria embora sem nem ao menos saber seu nome. iria embora e levaria toda aquela incrível vontade de não ouvir norah esta noite. ele a tocou no ombro e ela sentiu a frieza de sua pele e, por um instante, achou que poderia morrer ali e estaria feliz. então ele envergou-se e falou, quase num sussurro inaudível, com a voz meio rouca de quem não falara há horas e robusta como ela imaginou:
au revoir, mademoiselle.
e ela, boquiaberta, o viu deslizar por entre os presentes em direção à porta e o viu parar e sorrir para ela, alguns instantes antes de sumir. ela fitou a porta sem acreditar que ele se fora. olhou ao seu lado e viu um papel e o isqueiro que acendera seu cigarro. abriu o papel, ainda tremula. estava escrito com uma letra meio apressada e nervosa. com caneta preta e traços vacilantes:
maintenant vous avez quelque chose pour moi à êtes revenu..
voyez-vous bientô.

V.
fechou o papel com um sorriso que não dava havia anos. e sentiu que poderia ir para casa dormir. nada de norah essa noite.